A rigor, trata-se de uma biografia romanceada: a autora goiana cobre a vida de Eleanor Marx de junho de 1897 até sua morte, nove meses mais tarde, com bastante fidelidade aos registros historiográficos – a biografia de Yvonne Kapp parece lhe ter servido de base documental para a composição do material.

Mesmo havendo a delimitação de contar uma vida de 43 anos em um espaço ficcional de 9 meses, o livro não peca em fornecer, por intermédio de flashbacks da protagonista, um retrato bastante vívido da família Marx e dos Engels: de Lizzy e Sarah Burns, de Helena Demuth e Freddie, dos amigos socialistas da família, além do ativismo incansável de todos eles na vida política londrina. O livro é muito bem-sucedido no que se propõe, e consegue ser até mais palatável do que demais biografias no que toca à rixa entre Louise Kautsky e as filhas de Marx – quando Louise tenta se apossar dos manuscritos de Marx e Engels para levá-los, em segredo, para os arquivos do SPD na Alemanha (destaque aqui para o capítulo JANEIRO: O COMEÇO DO PESADELO, sobretudo página 118 em diante). Além disso, há uma ênfase (correta) sobre a imensa pressão que Eleanor carregou por toda vida para decifrar os manuscritos d’O Capital, editá-los, e comissionar suas traduções – assim que sua mãe faleceu prematuramente em 1881, ela entendera que se tornava uma das missões de sua vida lançar a opus magnum do pai. Há, no antepenúltimo capítulo, uma explicação bem desenvolvida sobre o fato de a edição do volume 4 d’O Capital ter ficado por conta de Karl Kautsky: Engels tinha acabado de falecer e Eleanor estava à beira de um colapso nervoso; ela se suicidou dois meses depois (ver página 120 em diante).

A autora Maria José Silveira merece crédito não só por ter escrito um belíssimo documento sobre a vida de Eleanor Marx, como também por tê-lo feito por iniciativa própria, em uma época em que ninguém dava atenção a essa figura. Se hoje, dezoito anos mais tarde, estão sendo publicadas esta Obra Completa em português brasileiro, ela faz parte desta história também. No final do livro, não oculta seu interesse de biógrafa: o livro tem um apêndice chamado “Como se cria um erro histórico” tratando sobre a possível correspondência entre Karl Marx e Charles Darwin (p. 161 e diante), além de contribuir para a compreensão do possível caso extraconjugal de Marx com Helena Demuth (p. 164 em diante).

Por F. V. Silva | A campanha de pré-venda da Obra Completa de Eleanor Marx ainda está de pé! Até 30 de janeiro, pode ser acessada no endereço www.catarse.me/eleanormarx

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