Rachel Holmes. Eleanor Marx: a life. Londres: Bloomsbury, 2013.
(Tradução para o português prevista para 2021).

Há biografias que apresentam os fatos básicos da vida de uma pessoa: retraçam sua educação, infância, formação e atividades da idade adulta. Há também biografias que recuperam um contexto mais amplo e nos convencem de que a há uma coerência entre as pessoas e as dinâmicas do mundo em que elas participam. Ao lermos esta segunda modalidade de textos, recuperamos um senso de beleza da atividade humana. Lembramo-nos de que, na História, não há fatalidade: cada estágio do mundo é resultado de escolhas individuais de seus agentes. A biografia de Rachel Holmes atende esse segundo modelo: é a mais bem-sucedida desta lista se nossa intenção for a de entender a atmosfera de ebulição social da Inglaterra vitoriana e o papel de Eleanor Marx ali.

Em meados de 1890, era virtualmente impossível transitar pelos sindicatos, pela boemia ou mesmo pelo submundo do teatro londrino sem esbarrar com Eleanor Marx. Biografias anteriores não fornecem um quadro convincente de sua atividade contracultural – Rachel Holmes é a primeira a aliar esse termo à figura. E vai além, iniciando sua história com uma genealogia da família Marx, passando pelo casamento de Karl e Jenny von Westphalen, seu envolvimento inicial com a causa revolucionária até culminar no aspecto central do livro: a formação de uma criança em um lar revolucionário.

Jenny Marx, a mãe da pequena Eleanor, a criou à contraexemplo dos modos aristocráticos da família – sem afetações, sem tentar transformá-la em uma dona de casa. O resultado foi uma criança ainda mais livre que a reservada família Marx. “Tussy”, como era conhecida, foi uma figura tão célebre na Dean Street de Londres que as crianças batiam em sua porta e pediam ao “Sr. e Sra. Tussy se a filha mais nova poderia sair para brincar”. É espantoso dizê-lo, mas o gigante da filosofia Karl Marx chegou a ter sua fama obliterada pela filha de 12 anos em um momento de sua vida – ele era o Sr. Tussy, e não ela a Srta. Marx. E não se trata de qualquer momento aqui: isso ocorreu no ano de 1867, em que é publicado o primeiro volume alemão de um livro chamado Das Kapital.

Mesmo assim, havia uma luta a ser travada contra as instituições educacionais inglesas, hesitantes em acolher estudantes meninas. “[A Universidade de] Cambridge foi fundada em 1223 e Oxford em 1187: assim, levou cerca de sete séculos para ambas as instituições compreenderem o inusitado conceito de que mulheres também são seres humanos, [seres] aptos à educação” (capítulo 4). A educação pouco convencional, rigorosamente crítica e intelectual de Eleanor Marx é retraçada em cada uma de suas etapas, nunca perdendo de vista o quanto tornava aquela criança inadequada para um mundo de papéis sociais limitados. O conhecimento dos clássicos, na família Marx, era indissociável da atividade prática, o envolvimento com pessoas, causas e ideias.

O livro não se pauta em uma discussão detida das obras de Eleanor, tampouco no resgate de sua fortuna crítica. Trata-se de uma obra que, nas mãos de acadêmicas e acadêmicos, deve ser complementada por trabalhos mais científicos como o de Kirsten Leng. Ainda assim, Rachel Holmes se prova uma pesquisadora multidisciplinar em seu tratamento da pouco estudada participação de Eleanor Marx na cena teatral e literária londrina (destaque para os capítulos 8, 11 e 15), e de como a relação amorosa com Edward Aveling só pode ser compreendida a partir daí: Aveling foi a porta de entrada para um mundo de espetáculo e performance que emanciparia Eleanor de seu lar, cheio de livros de economia e conversas sobre temas políticos.

A autora, Rachel Holmes

Igualmente, a cobertura da viagem empreendida em 1886 para o continente americano (capítulo 16) merece destaque. Rachel Holmes, talvez por ser sul-africana e não inglesa, não comete o erro de supor que o movimento da classe trabalhadora nas Américas tinha a aprender com uma revolucionária britânica – na verdade, Eleanor volta com algumas críticas ao Novo Sindicalismo da Inglaterra ao ver como seus antigos colonizados, apesar de padecerem ante uma opressão muito mais intensa, eram capazes de confrontar a classe patronal com enorme eficácia. A classe trabalhadora de cada país tinha algo a aprender com a de outro, e aqui reside uma das virtudes do internacionalismo ao qual Eleanor se dedicou durante toda a década de 1890, na organização da Segunda Internacional (tratada nos capítulos 17 e 18).

Ao final do livro, Holmes apresenta um balanço que merece ser reproduzido:

Muitas das liberdades e benefícios da democracia moderna que a Grã-Bretanha legou ao século XX e além […] foram um resultado direto do trabalho feito por Eleanor Marx e mulheres e homens como ela. A jornada de trabalho de 8 horas. A proibição do trabalho infantil. Acesso à educação igualitário. Liberdade de expressão. Sindicatos. Sufrágio universal. Representação parlamentar democraticamente eleita, independentemente de classe, religião, gênero ou etnia. Feminismo.


Viver ao lado de Eleanor por um momento é ter uma oportunidade de nos lembrarmos como chegamos aqui, de onde vieram as liberdades democráticas que gozamos. E a que preço teremos que abrir mão delas. (Afterword)

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