Chūshichi Tsuzuki.The Life of Eleanor Marx 1855-1898. A Socialist Tragedy. New York: Oxford University Press, 1967
Yvonne Kapp. Eleanor Marx: a biography. Em 2 volumes. New York : Pantheon Books, 1972 e 1976.

Duas obras pioneiras – duas que, para bem ou para mal, determinaram o script a ser seguido por qualquer um disposto a falar sobre Eleanor Marx.

Tsuzuki narra a história dessa “filha legítima da revolução” do ponto de vista de sua morte: lendo o subtítulo do livro, já esperamos uma vida cujo desfecho é a tragédia. Há um esforço inicial em aliar o trabalho estafante junto à organização da Segunda Internacional ao esgotamento mental que a levou ao suicídio, mas o livro termina como uma história de amores despedaçados: Edward Aveling, ao substituir a dedicada namorada por uma atriz mais jovem, leva Eleanor ao suicídio.

O livro é repleto de relatos de intrigas entre líderes socialistas e a posição frágil de Eleanor como alguém que entra no movimento com autoridade imediata – afinal, quem precisa de notabilidade quando se é a preferida de Karl Marx e Friedrich Engels? –; essas intrigas são expostas mais como picuinhas pessoais do que motivadas por convicções doutrinárias, por posicionamentos sérios dentro de um ambiente onde se disputava os rumos do movimento socialista. Cartas e algumas obras são mencionadas, mas o baixo número de notas de rodapé mostra que se trata de uma obra de exposição, não de um estudo mais rigoroso. Apesar da iniciativa e importância narrativa do trabalho de Tzusuki, temos nele um método de análise personalista, pouco interessante para estudantes do socialismo científico. Esse método resulta em um tipo de superficialidade que não se encontra em qualquer obra das biógrafas posteriores de Eleanor Marx. De qualquer forma, o livro foi traduzido em uma porção de línguas e tornou Eleanor uma figura conhecida após anos de seu isolamento nos bastidores, como mera filha que Karl Marx.

Yvonne Kapp

Yvonne Kapp segue o caminho oposto: comissionada pelo governo soviético para acessar os arquivos de Eleanor Marx, ela foi capaz de resgatar muitos dos artigos traduzidos em nosso volume da Obra Completa – o estudo de Kapp traz centenas de páginas contendo apêndices (transcrições inéditas da obra jornalística e cartas de Eleanor) e notas de rodapé. Tratam-se de mais de 1.000 páginas de pesquisa, algo que torna o livro um encontro obrigatório para qualquer pessoa academicamente interessada no tema – mas, ao mesmo tempo, o torna impopular junto ao público geral.

As objeções ao trabalho de Kapp foram expostas com eloquência pelo historiador E. P. Thompson (ver apêndice de nosso volume): para escrever 1.000 páginas sobre uma vida nem tão bem documentada, a autora foi obrigada a preencher muitas lacunas com especulações. Nos últimos 50 anos, muitas dessas interpretações vem sendo corrigidas com provas documentais; fica bastante claro que Yvonne Kapp se posiciona como uma defensora incondicional de tudo o que Marx, Engels e Eleanor fizeram e escreveram, impedindo-a de tomar um posicionamento mais crítico quando é cabível. Quando se trata de falar da relação amorosa de 15 anos com Edward Aveling, fica a impressão de que Eleanor foi vítima de seu espírito incorrigivelmente romântico, deixando-se ludibriar por um homem opressor e hipócrita. Consequentemente, a autora acaba por trair suas próprias intenções apologéticas: ela retrata Eleanor como uma mulher sem muita autonomia, um joguete na mão de homens manipuladores como Aveling, Liebknecht e Kautsky. Como biografias posteriores mostram, essa é uma injustiça à sua memória e à complexidade das relações entre esses líderes do movimento socialista da virada do século.

Poucas pessoas conheciam a vida e obra de Friedrich Engels como Yvonne Kapp: o livro dedica cerca de 180 páginas a um tratamento detido dos últimos meses da vida de Engels, quando se encontrava descontente com os rumos do socialismo inglês e relativamente isolado em sua casa (ver volume II, parte IV, The Last Lustre of the General). Esse é um material que desvia da proposta inicial do livro (tratar de Eleanor Marx, não de Engels), mas de suma importância para interessados nessa outra figura central de nossa história.

A Verso Books lançou uma versão em volume único da obra em 2018, tentando condensá-la ao máximo: o resultado são 896 páginas.

Por F. V. Silva | A campanha de pré-venda da Obra Completa de Eleanor Marx ainda está de pé! Até 30 de janeiro, pode ser acessada no endereço www.catarse.me/eleanormarx

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