Literatura universal em traduções inéditas e anotadas
LOJA VIRTUAL
Aetia Editorial

15.11.2017

Cagliostro na mídia. Do século XVIII ao XXI

Aproveitando o lançamento da peça O Grande Cophta (1791) de Goethe, fizemos um levantamento de diferentes documentos sobre a lenda de Cagliostro, o místico italiano que frequentava a alta nobreza europeia e, na comédia, é representado pelo conde Rostro
Giuseppe Balsamo ou o Alessandro, conde di Cagliostro, foi uma figura pública europeia e provocou confusão por onde passou. Uns o encaravam como a reencarnação do alquimista conde de St. Germain, outros como o renovador da maçonaria, e outros ainda como o maior charlatão vivo. Não restavam dúvidas que, independentemente de quem fosse, Cagliostro era grande e estava destinado a grandes feitos.
Em 1785 ele foi incluído do julgamento criminal que o responsabilizou, junto da condessa de La Motte, de arquitetar o plano do desfalque de um colar de diamantes caríssimo (a cena é retratada no ato V d’O Grande Cophta de Goethe; ver nosso artigo O Escândalo do Colar). Cagliostro foi trancafiado na Bastilha por seis meses e, então, inocentado de seus crimes. Logo depois Luís XVI, rei da França, mandou que exilassem o místico. O homem estava envolvido em rumores demais, havia retirado dinheiro demais dos cortesãos para ser alguém inofensivo. Ao mesmo tempo em que era investigado pela Santa Inquisição por pacto com o diabo, ele era braço direito do cardeal de Rohan, um dos líderes religiosos mais representativos do reino.

Até hoje a lenda de Cagliostro é viva. Ele foi pesquisado e venerado pela Madame Helena Blavatsky (cofundadora da Sociedade Teosófica), por adeptos da maçonaria egípcia (que, afinal, ele mesmo fundou) e mantido com dinheiro público em diversas cortes europeias a condição de guia espiritual dos aristocratas. Como mostra o artigo que finaliza nossa edição d’O Grande Cophta, de Goethe, místicos foram os grandes cosmopolitas do século XVIII. Eles adquiriam status de celebridade e tinham mais acesso aos reis do que o próprio papa: conhecemos bem a história de Gregori Rasputin, o braço direito do czar Nicolau II em pleno século XX. Luís XV manteve junto a si o conde de Saint Germain, homem que alegava possuir o elixir da juventude, estar em vários lugares ao mesmo tempo e poder purificar diamantes. Uma geração mais tarde, a rainha Maria Antonieta ofereceu uma pensão vitalícia a Franz Mesmer no valor de 20.000 livres, mais um acréscimo de 10.000 livres anuais, na condição que ele abrisse uma clínica em Paris para realizar suas curas milagrosas. Cagliostro, portanto, estava longe de ser um fenômeno único.

Separamos uma lista de vídeos, filmes, dramatizações ou adaptações livres sobre a vida do homem. Clique no título das obras para mais informações

Adaptações cinematográficas
The Affair of the Necklace, 2001. Dirigido por Charles Shyer, com Christopher Walken fazendo o papel de Cagliostro.
Joseph Balsamo, 1973. Mini-série para TV de André Hunebelle. Jean Marais interpreta o místico.
Black Magic, 1949. De Gregory Ratoff e Orson Welles. Baseada na versão de Alexandre Dumas. Orson Welles faz o conde [ver foto ao lado].
Münchhausen, 1943. Filme de Josef von Báky, Cagliostro tem um papel secundário e é interpretado por Ferdinand Marian.
Der Graf von Cagliostro, 1920. Filme mudo austro-alemão, dirigido por Reinhold Schünzel.
Rupan sansei: Kariosutoro no shiro (Lupan III: O Castelo de Cagliostro), 1979. Primeiro filme de Hayao Miyazaki. Não é propriamente uma adaptação da história de Giuseppe Balsamo, mas conta com uma versão moderna do místico (aqui, chamado Conde Lazare d’Cagliostro).
Orson Welles no papel de Cagliostro em Black Magic (1949)
Literatura
  
O primeiro a escrever uma obra de ficção baseada em Cagliostro foi Friedrich Schiller com  Der Geisterseher (1787-1789), seu primeiro e único romance que, infelizmente, nunca foi acabado. Nela, o místico é representado por uma personagem chamada simplesmente de “o Armênio”.

Goethe, durante sua viagem à Itália, teve contato com a lenda de Cagliostro e chegou a visitar a família Balsamo em Napóles. A visita rendeu um texto breve de nome Des Joseph Balsamo, genannt Cagliostro, Stammbaum, mais tarde incorporado ao famoso relato Viagem à Itália (ver entrada Palermo, 13 e 14 de abril de 1787). Baseado em suas experiências, Goethe iniciou um projeto de ficcionalização da vida do alquimista com um libretto chamado O Cophta (1787-1789), que foi abandonado pela metade e virou a comédia O Grande Cophta (1791). Todas as variantes do projeto estão presentes no volume publicado pela Aetia em 2017.

Posteriormente, Alexandre Dumas père escreveu uma série de romances históricos sobre a França dos Bourbon de título Memória de um médico. O primeiro volume se chama Joseph Balsamo (1846) e trata da vida de Cagliostro desde sua infância na Itália ( ler versão integral em francês).

O protagonista de uma das novelas mais famosa de E. T. A. Hoffmann, O Homem da Areia (1816), é atormentado por um alquimista chamado Coppelius/Spalanzani, criado no modelo do conde Rostro de Goethe. A partir daí surgiu uma tradição de místicos meio cômicos/meio vilões, de nacionalidade italiana e nome iniciado pela letra C, presente na literatura alemã até a época do expressionismo. Thomas Mann tem uma versão dessa personagem no Cavaliere Cippolla de Mario e o Feiticeiro (1930); Robert Wiene, na figura do doutor no clássico do horror O Gabinete do Doutor Caligari  (1920; assistir filme aqui).

Sobre essa tradição de místicos na literatura, ver também o estudo de Andreas Bässler: “Cagliostro als Menetekel des Verführers in Goethes Lustspiel Der Groß-Cophta (1791)”. Revista Neophilologus, abril 2011, vol. 95, número 2, p. 267-289 [ em alemão].

O escritor russo Alexei Tolstoi publicou em 1921 uma narrativa fantástica chamada Conde Cagliostro, posteriormente filmada na União Soviética sob o título Формула любви (Fórmula da vida, 1984, direção de Mark Sacharow).

Umberto Eco lida com a lenda de Cagliostro em O Pêndulo de Foucault (traduzida por Ivo Barroso, Editora Record, 1997).
  
Ópera e música
  
Na ópera A Flauta Mágica, de Wolfgang Amadeus Mozart, Sarastro representa Cagliostro.
Johann Strauss compôs uma Cagliostro Walzer, op. 370, em homenagem ao místico.
Demais ligações
  
Cagliostro: O Grande Mestre do Oculto (canal Realidade Fantástica) – Vídeo bem documentado sobre a biografia e doutrina de Cagliostro, tudo sob a perspectiva do ocultismo. No vídeo, Jamil Salloum Jr. recomenda alguns textos biográficos e volumes em português a respeito de seu pensamento.

O site britânico Life in Italy publicou uma matéria longa sobre a lenda de Cagliostro, dando detalhes para quem tiver interesse de visitar lugares onde o homem morou, foi preso e fundou lojas da Maçonaria Egípcia [ em inglês].