Literatura universal em traduções inéditas e anotadas
LOJA VIRTUAL
Aetia Editorial

15.11.2017

Notas sobre o gênero da tragédia burguesa

Nosso primeiro lançamento, Maria Madalena (1844) de Hebbel, é considerado a última tragédia burguesa e iniciador de uma tradição de dramas sociais em seu país. Neste artigo, discutiremos alguns conceitos centrais da historiagrafia literária alemã que talvez não sejam muito familiares por aqui.
A tragédia burguesa foi um gênero de vida relativamente curta, tendo durado de 1755 a meados de 1844. A primeira peça a se declarar uma tragédia burguesa foi Miss Sara Sampson de G. E. Lessing (1755), e curiosamente nenhuma de suas personagens centrais são de fato burguesas: Miss Sara, Marwood e o Sir Sampson são todos membros da baixa nobreza. Quando Lessing aplicou o termo bürgerlich para designar o gênero, se referia menos ao Terceiro Estado (em oposição à aristocracia e clero) e mais ao ambiente privado, doméstico e à vida individual das personagens de seu drama.
Consideremos ao que era reservado os palcos naquela altura: por influência da cultura neoclássica dos franceses, peças sérias eram necessariamente sobre a vida de grandes figuras da história ou mitologia, ou mesmo sobre o destino das nações. Da mesma forma, as ações descritas no palco eram tudo menos domésticas: havia mais chance de o público teatral de meados de 1750 assistir o suicídio do grande governante romano Catão, ou ainda Édipo matando o próprio pai inconsciente do fato, do que problemas familiares, por exemplo. Teatro sério não era lugar de cenas da vida comum; para isso haviam comédias, o lugar reservado para ridicularização de gente comum e dos 'vícios do populacho'.

A manobra de Lessing de criar um teatro sério sobre a vida de mulheres e homens comuns é, por isso, bastante democrática: ele estava criando uma cultura que ressaltava a virtude da gente trabalhadora e resistindo ao elitismo implícito à cultura da aristocracia. O passo que deu ao explorar problemas corriqueiros de gente simples com dignidade foi essencial para a criação do teatro como conhecemos hoje, para as narrativas de televisão e cinema. Lessing é precursor tanto da grande cinematografia quanto da telenovela com suas fórmulas prontas; o alcance de sua reforma não pode ser subestimado.

Com o tempo, tragédias burguesas passaram a tematizar diretamente conflitos entre estamentos. É como se o burguês no título do gênero se transformasse no assunto central das peças e seu principal apelo para um público interessado em criticar os abusos da aristocracia. O próprio Lessing foi parte dessa mudança na tradição de tragédias burguesas quando publicou Emilia Galotti (1772); na peça, um nobre libertino tenta ganhar favores sexuais de uma jovem burguesa inocente, Emilia, e compra uma briga inesperada com o pai desta, Odoardo Galotti. Seguindo os passos de Lessing, Schiller foi ainda mais longe e retratou o amor trágico e impossível entre uma burguesa e um nobre em Intriga e Amor (1783) que termina na desgraça de todos unicamente por causa do preconceito da geração dos pais. Algo muito parecido com o Romeu e Julieta (1594/96) de Shakespeare, mas produzido num contexto de tensões sociais às vésperas das revoluções sociais que se estendem de 1789 a 1848.
  
Assim, a tragédia burguesa é um fenômeno de interesse para sociólogos e historiadores até hoje uma vez que podem ser vistas como uma manifestação cultural do descontentamento popular com a sociedade estamental do Antigo Regime, que já ganhava corpo cinco décadas antes da Revolução Francesa.

Em 1844 surge a Maria Madalena de Friedrich Hebbel, a peça que colabora para a ‘dissolução’, digamos, do gênero em algo diferente, iniciando uma tradição de dramas sociais que marcará a produção teatral mundial dali para frente e abrirá portas para a dramaturgia de Ibsen, Strindberg, Wedekind e Brecht. A razão pela qual Hebbel se vê na necessidade de superar o gênero da tragédia burguesa é simples: no momento em que a escreveu, a Revolução Francesa e seus problemas eram coisa do passado.

A burguesia já tinha sua cultura literária bem estabelecida, a decadência da cultura aristocrática era evidente, e escrever mais uma peça louvando as virtudes dos burgueses contra a pretensa frivolidade dos nobres era um gesto vazio. Em 1844, o burguês explorava o burguês; ele próprio e sua cultura (baseada nos valores da família e bons costumes) se tornaram o problema do mundo. Klara, protagonista da peça em questão, é uma mulher simples e virtuosa como todas as heroínas anteriores das tragédias burguesas: sua existência é minada menos por ação dos poderosos e mais pelo moralismo do pai, o desleixo do irmão, a superstição da mãe e pelo namorado Leonhard, uma caricatura perfeita do burguês cínico e uma das grandes criações de Hebbel.
Cena de Miss Sara Sampson, de G. E. Lessing, encenada em novembro de 2012 no Theater am Neumarkt (Zurique). Direção de Laura Koerfer I Link
Selecionamos as principais tragédias burguesas, indicando as que foram traduzidos para o português.

Sobre o gênero
Peter Szondi. Teoria do drama burguês [século XVIII]. Cosacnaify, 2004.

Peças
  • Lessing
Emilia Galotti. Hedra, 2010.
Três peças. Top Books, 2015 (contém Emilia Galotti).
Lessing: Obras. Crítica e Criação. Perspectiva, 2016 (contém Emilia Galotti e textos teóricos importantes sobre o gênero).
Grandes dramaturgos. Editora Peixoto Neto, 2007 (volume 3. Coletânea de 5 livros, contém Emilia Galotti)

  • Schiller
Amor e intriga. UFPR, 2005.

  • Hebbel
Maria Madalena. Aetia, 2017.

  • Diderot
O Filho Natural. (Na coleção Obras. Volume 5). Perspectiva, 2008

  • Textos centrais não-traduzidos
George Lillo: The London Merchant; or, the History of George Barnwell (1731)
Edward Moore: The Gamester (1753)
Lessing: Miss Sara Sampson (1755)
Johann Wolfgang von Goethe : Stella (1775)
Heinrich Leopold Wagner: Die Kindermörderin (1776)
J. M. R. Lenz: Die Soldaten (1776)
A. W. Iffland: Die Mündel (1786)
Beaumarchais: La Mère coupable (1792)
Otto Ludwig: Der Erbförster (1850)

Adolph Menzel. Théâtre du Gymnase in Paris (1856)
Juan Bautista Martínez del Mazo. La familia del pintor Juan Bautista Martínez del Mazo (1665)