Literatura universal em traduções inéditas e anotadas
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Aetia Editorial

15.11.2017

Sobre o Escândalo do Colar de 1785

A comédia O Grande Cophta (1791) de Goethe dramatiza o maior escândalo ocorrido na corte de Versalhes no século XVIII, envolvendo o cardeal de Rohan, sua amante, a rainha da França e o desfalque de um colar de diamantes de 2.800 quilates, avaliado a atuais 25,5 milhões de dólares. O evento em si parece ter sido arquitetado para aparecer no palco de um teatro.
O contexto é o seguinte: em 1774, o jovem rei da França foi casado com Maria Antonieta, filha da poderosa Maria Teresa da Áustria. Os dois adolescentes foram instalados no suntuoso palácio de Versalhes, e por dez anos sua vida pessoal foi alvo de todos os tipos de rumores: Maria Antonieta não era bem vista por ser uma estrangeira (ela nasceu Marie Antoinette Josèphe Jeanne de Habsbourg-Lorraine em Viena, no dia 02/11/1755). Ela era bela demais, excêntrica demais para os costumes franceses, e sendo filha da governante do Império Austro-Húngaro, estava acostumada a uma vida dispendiosa. Luís XVI, por outro lado, era um líder apagado, pouco viril, sem a personalidade forte de seus predecessores. Logo surgiram boatos dos casos de Maria Antonieta com diversos nobres, homens e mulheres, de seu vício em jogos e bailes extremamente caros, dados numa época em que o reino de França estava à beira da falência. A nova rainha da França era um símbolo perfeito para a decadência aristocrática que os revolucionários derrubarão em 1789.
  
Do outro lado temos o cardeal Louis-René-Édouard de Rohan-Guéménée, o funcionário mais caro do reino. Rohan não tinha acesso ao círculo interno de Versalhes, digamos, em função de suas más relações com a mãe de Antonieta. Por esse motivo, jovem a nobre nem ao menos lhe dirigia a palavra. Com sua entrada na corte, Rohan estaria isolado, ao menos que desse um jeito de conquistar seus favores.

A ideia de como isso poderia acontecer veio da condessa de La Motte (Jeanne de Valois-Saint-Rémy), amante de Rohan e suposta amiga pessoal da rainha. Em 1784, De La Motte inicia o plano que a tornará a maior caloteira do século XVIII: ela arranja com encontro noturno, à meia luz, entre Rohan e uma sósia de Maria Antonieta. Rohan, sem saber da farsa, pensa ter selado o início de uma reconciliação com a família real. Pouco depois recebe um pedido de ser avalista da compra de um colar de diamantes (foto) que a rainha queria, mas não desejava que aparecesse nas contas reais. Rohan só teria que pagar a primeira parcela e esperar um acerto das mãos da mulher mais rica do reino.​​
Sua Majestade, Marie Antoinette (1755-1793)
Retrato de Joseph Ducreux, 1769.


O pagamento nunca veio, é claro. A joia foi desmontada e suas gemas levadas a Londres, onde foram vendidas pelo marido de La Motte. Somente em 1785 inicia-se o processo de descoberta da trapaça. A rainha recebe uma cobrança dos joalheiros e diz não saber do que uma tal soma se trata. Logo o rei é acionado e exige-se um julgamento público do cardeal de Rohan e todos os envolvidos. Um tal julgamento, em partes, foi responsável pelas consequências desastrosas do caso para a família real. Os processos começaram em 25 de agosto de 1785 e acabaram só em 31 de maio de 1786, provando a lentidão do aparato jurídico. Rohan foi absolvido de todas as acusações e posteriormente mandado para o exílio; La Motte foi marcada à ferro e humilhada publicamente. Mesmo um famoso místico, braço direito de Rohan, Cagliostro, foi condenado a passar 6 meses na Bastilha, ainda que seu envolvimento no caso nunca foi provado. O aparato de justiça se provava arbitrário.

Maria Antonieta, por fim, não recuperou sua boa imagem. Na altura de 1785 ela já era mãe e vivia uma vida incomparavelmente mais sedentária. Isso, porém, não importava ao povo. Apesar de Antonieta não ter envolvimento real no caso, o que a população francesa a ligava mais uma vez a um escândalo, à compra de joias luxuosas num período da história em que poucos tinham acesso a pão. Se não têm pão, “que comam bolo” — é a frase que se atribui à rainha da França quando foi confrontada com a fome que assolava o Terceiro Estado. Essa frase também é apócrifa, mas como toda ficção, não é de todo irreal: a arrogância e descaso da rainha, além de toda a nobreza que representava, era um fato consumado, e quatro anos depois seria deposta pela grande Revolução Francesa de 1789.
  

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Mais de um biógrafo e ficcionalizador do evento enxergou uma relação causal direta entre ele a Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789: Thomas Carlyle o fez, assim como Alexandre Dumas e Stefan Zweig (lançado em seu exílio no Brasil em 1932). Mesmo a versão hollywoodiana da vida de De La Motte (The Affair of the necklace, 2001) repete esse lugar comum. Todas essas leituras são herdeiras da peça de Goethe, nesse sentido. O primeiro a questionar essa relação fácil de causa e consequência, dizendo que as coisas foram mais complexas do que parece, foi já o historiador Theodor Mommsen, já no século XIX.  

De qualquer forma, para fins dramáticos, o Caso do Colar foi eleito como um símbolo de que algo estava errado com a França e uma revolução era o mínimo a se esperar. Na peça O Grande Cophta, Goethe altera alguns nomes:

  • Maria Antonieta é a princesa;
  • Cardeal de Rohan é o cônego;
  • Condessa de La Motte é a marquesa;
  • Cagliostro é o conde Rostro e discípulo do Grande Cophta;
  • Luís XVI é identificado apenas como “o rei”.
  
Réplica do colar (autor desconhecido)
Separamos algumas biografias e links sobre a rainha francesa e sua fama.
  
Livros
  
Claude Dufresne. Maria Antonieta: o escândalo do prazer. Edições 70, 2007.
Stefan Zweif. Maria Antonieta: o retrato de uma mulher comum. Editora Guanabara, 1934.
Vincent Cronin. Louis and Antoinette. The Harvill Press, 1989.
Antonia Fraser. Marie Antoinette, Talese/Doubleday, 2001.
Christopher Hibbert. The Days of the French Revolution, Harper Perennial, 2002.
Dena Goodman. Marie-Antoinette: Writings on the body of a queen.
Évelyne Lever. Marie Antoinette : the last queen of France. Portrait, 2006.
Kathryn Lasky. The Royal Diaries: Marie Antoinette, Princess of Versailles. Austria-France, 1769. Scholastic, 2000.


Demais ligações
  
Wiki. Maria Antonieta
Dangerous Minds: Sobre panfletos pornográficos sobre as escapadas de Maria Antonieta [ em inglês]
Smithsonian Magazine: Resumo biográfico mais extenso, com comentários sobre a filmagem de Sofia Coppola [ em inglês]
Le Forum de Marie-Antoinette. Sa vie, son siècle. Fórum de discussões a respeito da rainha, bastante completo [ em francês]
  
Adaptações cinematográficas
  
Maria Antoinette, 2006. Dirigido por Sofia Coppola, com Kirsten Dunst interpretando a rainha.
The Affair of the Necklace, 2001. Dirigido por Charles Shyer, com Hilary Swank como a condessa de La Motte.
Marie Antoinette, reine de France, 1956. Dirigido por Jean Delannoy. Michèle Morgan interpreta a rainha.
Marie-Antoinette, 2006. Série de TV canadense dirigida por Francis Leclerc e Yves Simoneau. Karine Vanasse faz a rainha.
L'affaire du collier de la reine, 1946. Dirigido por Marcel L’Herbier, inspiração para a série televisiva. Viviane Romance faz a rainha.
Le Collier de la Reine, 1909. Curta metragem mudo dirigido por Étienne Arnaud e Louis Feuillade. Publicado na Dinamarca.
Le Collier de la Reine, 1929. Dirigido por Gaston Ravel e Tony Lekain, adaptação da versão de Alexandre Dumas. A rainha é interpretada por Diana Karenne.