Harriet Jacobs em contexto

    (Por Felipe Vale da Silva)


A história da Anne Frank é conhecida — ela foi a mocinha judia que, para fugir da perseguição nazista, teve que viver num cubículo dentro das paredes de uma casa em Amsterdã nos anos 40. Em seus diários, Frank relata o terror de ouvir seus perseguidores há poucos metros, tendo que abafar os gritos de pavor perante a possibilidade de ser capturada a qualquer momento. A fórmula literária da Frank provou ter um poder dramático absurdo — e aqui eu não falo ‘dramático’ como um artifício sentimental e pegajoso de novela das 6 — aqui estamos falando da história de vida de uma adolescente de carne e osso que acabou no campo de concentração de Bergen-Belsen pelo fato de ser judia.

  Mais de 80 anos antes do encarceramento e morte da Frank, uma mãe da Carolina do Norte chamada Harriet Ann Jacobs teve uma experiência parecida: Ela se viu obrigada a se esconder no porão da avó, um lugar onde conseguia ficar no máximo em posição sentada. E ela não fez fugindo dos nazistas ou qualquer outra ameaça externa. Jacobs era uma escrava que valia US$ 100 (o que era uma grana na época) fugindo de seu proprietário, o dr. Norcom (“dr. Flint“), um médico renomado da região que a mantinha em casa como escrava-babá de sua filhinha pequena, mas também para fazer seus avanços sexuais. Sua perseguição, portanto, era ratificada por lei estadual. Jacobs começou a fugir do indivíduo com apenas 13 anos, e sua história de vida — a que ela conta neste livro — traz dados interessantes sobre a experiência de tantas mulheres negras e mulatas nos Estados Unidos do século XIX. E também sobre a estrutura familiar daquela terra que supostamente foi puritana e cristã desde o início. O quadro que Jacobs mostra é que os EUA foram bem diferentes do que se prega.      A situação é a seguinte: em meados de 1840, 25% das famílias do Sul dos EUA possuíam pelo menos um escravo ou servo. Escravidão era uma instituição extremamente lucrativa; não poucos donos de lavouras na Geórgia e Carolinas eram mais ricos que monarcas europeus, o doge de Veneza ou o rei de Holstein, por exemplo: e eles agiam em suas regiões tais quais os reis absolutistas. Aquela era uma época de disciplina familiar estrita, em que o pai mandava no destino dos filhos e a esposa — sem exageros aqui — era mais uma criança na família, só que uma criança com obrigações reprodutivas. Em inglês novecentista, um nome carinhoso para esposas norte-americanas era my child; quem lê literatura vitoriana já sabe disso. A mulher devia se portar como um pré-púbere meio boçal, ficar em casa o dia todo e fingir inocência em certas matérias — purismo sexual, por exemplo, era uma obrigação para qualquer mulher que não quisesse ser jogada no olho da rua. Existem dados históricos insanos da época a respeito: de que uma boa dona de casa devia organizar sua estante de livros não misturando autores homens e mulheres. A não ser que eles fossem casados; aí sim você podia por o livro lá do Thomas Carlyle com o da Madame Carlyle, Deus não ia castigar e você não pareceria uma devassa aos olhos da sociedade e da criadagem.
  Daí entra a hipocrisia que a própria Jacobs, como escrava dentro da casa dos Flints, presenciou e delatou: boa parte dos homens brancos, já adolescentes, tinham suas experiências sexuais com escravas, quase invariavelmente a força ou através de algum meio de coerção. As brancas casadas, com a necessidade de manter a fachada de purista sexual, não podia confrontar o marido e filhos diretamente — daí ela ia lá e descontava nas escravas dando-lhes mais serviço, cortando-lhes os cabelos (o grande símbolo da feminilidade novecentista), tirando-lhes artefatos de higiene pessoal básicos como sabonetes e pentes, ou simplesmente tomando o chicote e descendo o cacete nas moças já previamente estupradas. A vida familiar norte-americana no Sul, em resumo, era uma zona completa, marcada por silêncios, tabus e muita sacanagem. E quem levava a pior era sempre a mulher negra cativa.      Esse é um dos aspectos interessantes, que não lemos tanto em livros de história e que Jacobs traz no seu, desde que começa a contar sua infância até a decisão de se esconder do mestre por 7 anos no porão da vó — eu tinha esquecido de falar isso, 7 anos — depois disso ele discorre um pouco sobre a chance que teve de fugir com os dois filhos pequenos e suas aventuras pelo Norte que, embora não fosse oficialmente escravista, não facilitava em nada para integrar os negros fugidos. Esse é um segundo problema que aponta para a sensibilidade daquela mulher que viveu a abolição da escravatura em 1863 e a ratificação da 13. emenda no final de 1865: Jacobs tinha plena consciência que abolir cativos era só o começo, não uma solução definitiva. A situação do negro tinha fundo ideológico profundamente arraigado na cultura dos EUA. Jacobs viveu isso na pele enquanto estava escrevendo este livro, inclusive: ela saiu da escravidão sabendo ler e escrever, mas sem nenhuma experiência de leitura: tudo o que ela lera antes de se libertar foram cartas de familiares. Em 1852, quando ela já está instalada no Norte e envolvida com círculos abolicionistas, chega na mais célebre escritora branca, Harriet Beecher Stowe, e pergunta se esta tem interesse em escrever sua história de vida. Essa era uma prática comum naquele meio: os próprios pastores abolicionistas como William Lloyd Garrison encorajava fugitivos a contar a história real de suas vidas, tirar a ideia ainda em voga de que a escravidão sulista era uma instituição benevolente e idílica, em que senhores de lavoura paternalistas cuidavam dos pobres e ignorantes escravos em troca de um “pouquinho de trabalho”. Sério; enfrentar essa ideologia absurda foi um dos grandes desafios do movimento abolicionista. 

   Pois bem. A Jacobs estava fazendo sua parte. A resposta da Beecher Stowe foi: ela lançaria um novo livro que certamente venderia muito e o que ela podia fazer era resumir a história de Jacobs e sua família num capítulo. Ser confrontada com aquela proposta—de ver a experiência dos seus resumida para caber num compêndio voyeurista de experiências infelizes da escravidão — o que basicamente A key to Uncle Tom’s Cabin da Stowe é – foi o fim da picada para Jacobs. Aqui a gente tem uma das celebridades do próprio abolicionista repetindo a atitude paternalista e de tons superiores dos escravistas — notem a ironia da situação.
   Nos 9 anos seguintes ela acabava o expediente de babá e empregada doméstica, sentava-se com livros da patroa à luz de vê-la e os devorava; ela leu toda a literatura antiescravista de então, Byron, parte dos românticos, a bíblia, romances sentimentais ao estilo de Richardson, e sacou o que era um estilo literário adequado, quais eram as convenções e regras do jogo. Só então começou a escrever os relatos de vida que resultarão neste volume, que agora trazemos numa segunda tradução brasileira para vocês, com linha do tempo, notas, e um glossário extenso, de 34 páginas, explicando conceitos centrais da vida e obra da Jacobs: sua relação de amor e ódio com o movimento abolicionista do Norte, sua versão de fé cristã, como ela ampliou o conceito de Desobediência Civil do ecoanarquista Thoreau, a cultura familiar do século XIX, os ideais de feminilidade e domesticidade divulgados então e muito mais.
  Este livro é uma das mais célebres narrativas de escravo — o gênero que começa a prosa afro-americana e, entre 1845 com Frederick Douglass e 1861 com a Jacobs, foi um veículo sem igual para a divulgação dos males da escravidão, servindo de passo essencial para o fim da instituição naquele país após uma guerra civil extremamente sangrenta, a de 1861 a 1864. Se te ensinaram que a escravidão nos EUA acabou porque o Abraham Lincoln era gente fina e resolveu num belo dia assinar um documento, este é definitivamente um livro para você também.  

Dr.  James Norcom, Sr., o “Dr. Flint”

Foto rara de enfermeiras que se voluntariaram na Guerra Civil americana, um dos eventos que definiram a abolição da escravatura. Harriet Jacobs e sua filha estão no meio delas
 (Fotógrafo desconhecido)