Notas sobre a tragédia burguesa

Nosso primeiro lançamento, Maria Madalena (1844) de Hebbel, é considerado a última tragédia burguesa e iniciador de uma tradição de dramas sociais em seu país. Neste artigo, discutiremos alguns conceitos centrais da historiagrafia literária alemã que talvez não sejam muito familiares por aqui.

Consideremos ao que era reservado os palcos naquela altura: por influência da cultura neoclássica dos franceses, peças sérias eram necessariamente sobre a vida de grandes figuras da história ou mitologia, ou mesmo sobre o destino das nações. Da mesma forma, as ações descritas no palco eram tudo menos domésticas: havia mais chance de o público teatral de meados de 1750 assistir o suicídio do grande governante romano Catão, ou ainda Édipo matando o próprio pai inconsciente do fato, do que problemas familiares, por exemplo. Teatro sério não era lugar de cenas da vida comum; para isso haviam comédias, o lugar reservado para ridicularização de gente comum e dos ‘vícios do populacho’.
A manobra de Lessing de criar um teatro sério sobre a vida de mulheres e homens comuns é, por isso, bastante democrática: ele estava criando uma cultura que ressaltava a virtude da gente trabalhadora e resistindo ao elitismo implícito à cultura da aristocracia. O passo que deu ao explorar problemas corriqueiros de gente simples com dignidade foi essencial para a criação do teatro como conhecemos hoje, para as narrativas de televisão e cinema. Lessing é precursor tanto da grande cinematografia quanto da telenovela com suas fórmulas prontas; o alcance de sua reforma não pode ser subestimado.

Juan Bautista Martínez del Mazo. La familia del pintor Juan Bautista Martínez del Mazo (1665)

Com o tempo, tragédias burguesas passaram a tematizar diretamente conflitos entre estamentos. É como se o burguês no título do gênero se transformasse no assunto central das peças e seu principal apelo para um público interessado em criticar os abusos da aristocracia. O próprio Lessing foi parte dessa mudança na tradição de tragédias burguesas quando publicou Emilia Galotti (1772); na peça, um nobre libertino tenta ganhar favores sexuais de uma jovem burguesa inocente, Emilia, e compra uma briga inesperada com o pai desta, Odoardo Galotti. Seguindo os passos de Lessing, Schiller foi ainda mais longe e retratou o amor trágico e impossível entre uma burguesa e um nobre em Intriga e Amor (1783) que termina na desgraça de todos unicamente por causa do preconceito da geração dos pais. Algo muito parecido com o Romeu e Julieta (1594/96) de Shakespeare, mas produzido num contexto de tensões sociais às vésperas das revoluções sociais que se estendem de 1789 a 1848.  
Assim, a tragédia burguesa é um fenômeno de interesse para sociólogos e historiadores até hoje uma vez que podem ser vistas como uma manifestação cultural do descontentamento popular com a sociedade estamental do Antigo Regime, que já ganhava corpo cinco décadas antes da Revolução Francesa.
Em 1844 surge a Maria Madalena de Friedrich Hebbel, a peça que colabora para a ‘dissolução’, digamos, do gênero em algo diferente, iniciando uma tradição de dramas sociais que marcará a produção teatral mundial dali para frente e abrirá portas para a dramaturgia de Ibsen, Strindberg, Wedekind e Brecht. A razão pela qual Hebbel se vê na necessidade de superar o gênero da tragédia burguesa é simples: no momento em que a escreveu, a Revolução Francesa e seus problemas eram coisa do passado.

Adolph Menzel. Théâtre du Gymnase in Paris (1856)

A burguesia já tinha sua cultura literária bem estabelecida, a decadência da cultura aristocrática era evidente, e escrever mais uma peça louvando as virtudes dos burgueses contra a pretensa frivolidade dos nobres era um gesto vazio. Em 1844, o burguês explorava o burguês; ele próprio e sua cultura (baseada nos valores da família e bons costumes) se tornaram o problema do mundo. Klara, protagonista da peça em questão, é uma mulher simples e virtuosa como todas as heroínas anteriores das tragédias burguesas: sua existência é minada menos por ação dos poderosos e mais pelo moralismo do pai, o desleixo do irmão, a superstição da mãe e pelo namorado Leonhard, uma caricatura perfeita do burguês cínico e uma das grandes criações de Hebbel.​

Cena de Miss Sara Sampson, de G. E. Lessing, encenada em novembro de 2012 no Theater am Neumarkt (Zurique). Direção de Laura Koerfer I Link

Selecionamos as principais tragédias burguesas, indicando as que foram traduzidos para o português.


Sobre o gênero

Peter Szondi. Teoria do drama burguês [século XVIII]. Cosacnaify, 2004.
Peças

  • Lessing

Emilia Galotti. Hedra, 2010.Três peças. Top Books, 2015 (contém Emilia Galotti).Lessing: Obras. Crítica e Criação. Perspectiva, 2016 (contém Emilia Galotti e textos teóricos importantes sobre o gênero).Grandes dramaturgos. Editora Peixoto Neto, 2007 (volume 3. Coletânea de 5 livros, contém Emilia Galotti)

  • Schiller

Amor e intriga. UFPR, 2005.

  • Hebbel

Maria Madalena. Aetia, 2017.

  • Diderot

O Filho Natural. (Na coleção Obras. Volume 5). Perspectiva, 2008

  • Textos centrais não-traduzidos

George Lillo: The London Merchant; or, the History of George Barnwell (1731)
Edward Moore: The Gamester (1753)
Lessing: Miss Sara Sampson (1755)
Johann Wolfgang von Goethe : Stella (1775)
Heinrich Leopold Wagner: Die Kindermörderin (1776)
J. M. R. Lenz: Die Soldaten (1776)
A. W. Iffland: Die Mündel (1786)
Beaumarchais: La Mère coupable (1792)
Otto Ludwig: Der Erbförster (1850)