Literatura universal em traduções inéditas e anotadas
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Aetia Editorial

28.01.2018

Menos hygge, mais criticismo
Perfil de Ludvig Holberg

Aproveitando os 264 anos sem Holberg, traçamos um perfil desse grande iluminista e pai da literatura dinamarco-norueguesa, comentando sua obra-prima A jornada subterrânea de Niels Klim (1741)
Um estudante de teologia recém-formado retorna a Bergen, sua cidade natal, e resolve explorar uma caverna misteriosa junto à encosta de uma montanha. Ao escorregar para dentro de um buraco abismal, ele descobre o inesperado: o planeta Terra é na realidade oco, e abriga uma infinidade de outros povos e espécies de seres vivos até então desconhecidos pela ciência. O estudante Niels Klim é o primeiro a quem é revelado o fato de que nosso conhecimento do planeta é, sem intenção do trocadilho, meramente superficial.
 Niels Klims underjordiske Rejse (A jornada subterrânea de Niels Klim, 1741), escrita pelo dinamarquês Ludvig Holberg, trata dos diversos encontros desse curioso explorador no submundo. Ali ele se depara tanto com formas de organização social superiores à humana quanto inferiores, com religiões e sistemas políticos singulares que simultaneamente o espantam e confrontam sua visão de mundo. Tudo isso de forma muito semelhante às Viagens de Gulliver (1722) de Jonathan Swift, uma obra já bastante conhecida no Brasil. O livro de Holberg, por sua vez, é de sumo interesse para quem estuda utopias e tem interesse em conhecer uma modalidade de ficção científica escrita já em pleno século XVIII.

Hoje, 28 de janeiro de 2018, faz exatos 264 anos que Holberg deixou este mundo, e o fez como o principal representante do Iluminismo escandinavo, além de pai das literaturas norueguesa e dinamarquesa (reinos que, na época, ainda eram unidos). Além de historiador, filósofo e escritor de ficção científica, Holberg foi um grande escritor de sátiras — o Molière do Norte, como o chamavam.

Traduzimos o capítulo 13 das Jornadas de Niels Klim para deixar um gostinho de como funciona sua narrativa: nela, Klim descobre em uma biblioteca um volume de etnografia sobre os povos da superfície, escrito por um habitante subterrâneo que teve chance de conhecer diversos reinos da Europa. Com o seu olhar de estrangeiro, ele interpreta (como consegue) as contradições que permeiam a vida cultural e religiosa dos europeus. Algumas previsões são engraçadas justamente por fazerem tanto sentido: ao se deparar com mosteiros, ele não consegue concluir qualquer coisa diferente de: "Tenho um tipo de suspeita que os europeus sejam canibais, pois trancam grandes rebanhos de pessoas saudáveis e fortes em certos espaços chamados monastérios, com o propósito de torná-los gordos e brandos."
Em outro trecho: "Na Europa, apenas os membros inúteis da sociedade são respeitados; estes devoram não só os frutos da terra como a própria terra. Os cultivadores do solo, que alimentam esses glutões, são rebaixados por seu espírito industrioso e desprezados por sua utilidade."

Holberg não poupa ninguém; católicos e protestantes, espanhóis e alemães são expostos por seus hábitos e preconceitos, todos eles filtrados pela criatividade desse estrangeiro. Aqui encontramos o uso da mesma técnica de crítica velada (mas óbvia, para bons entendedores) que conhecemos dos livros de Voltaire, Molière e Lessing.



Links  
Tradução completa da obra de John Gierlow, para o inglês (Boston: Saxton, Peirce & Co, 1845). Clique aqui
Niels Klims underjordiske Rejse Texto original em dinamarquês
Audio-livro completo, via Youtube [em inglês]