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Obra-prima da ficção científica socialista, originalmente publicada em 1888

No 3°. lançamento de nossa biblioteca socialista, trazemos o clássico da ficção científica estadunidense Looking Backward: 2000-1887. Edward Bellamy o lançou em 1888, quando o socialismo era visto nas Américas como uma ideia importada da Europa; por meio do livro, introduziu sua geração a teorias e visões de um futuro em que os meios de produção seriam controlados pelos trabalhadores.

“É questionável que alguma vez um homem, durante sua vida, tenha tido mais influência sobre as convicções de seus concidadãos do que Edward Bellamy. No momento de sua morte, Karl Marx mal havia sido ouvido pelas massas, e embora sua influência sobre a luta pelo progresso tenha se tornado preponderante, isso se deu por atuação de seus intérpretes; não foi sua própria voz que falou para as multidões. A mensagem de Bellamy, por sua vez, era simples e direta: sua imaginação concebeu e sua arte deu forma a quadros do futuro em traços tão claros e audaciosos, que a mente mais simplória foi capaz de entendê-lo, de se juntar a ele.” (necrológio escrito por Eugene Debs. 28/05/1898)

O livro começa na era dos grandes industriários, como Rockerfeller e Andrew Carnegie – os primeiros bilionários do mundo, gente que criou formas de fazer lobby junto ao governo de forma a evadir impostos, burlar leis trabalhistas e criar monopólios nunca antes vistos no ocidente, iniciando a tal fase monopolista do capitalismo industrial.

O protagonista do livro é Julian West, filho de uma família de industriários que tem um desdém imenso pela classe trabalhadora e seus objetivos. Ele é descrito como uma pessoa com dificuldades para dormir – então recorre a um método de terapia de sono místico da época, o mesmerismo, que já foi levado a sério por um monte de gente de ciência. Um guru administra uma sessão mesmérica, ele é hipnotizado mas não acorda no outro dia. Na verdade o corpo dele atinge um estágio de dormência mais intenso do que o de um animal que hiberna e ele acorda mais de 100 anos pra frente, no ano 2000. E ele desperta em um EUA socialista. Não existe mais classes sociais. O mundo é altamente tecnológico e uma harmonia social inédita foi atingida.

Parte do interesse que o romance desperta deriva do conflito pessoal de Julian West com seus próprios valores. Ele é recebido de braços abertos por um médico e sua família, e tem que aprender como cada elemento do credo liberal é falacioso e só leva a uma sociedade quebrada, instável e violenta. Embora veja que os EUA de 2000 é infinitamente melhor e mais justo, mas mesmo assim custa para aceitar que a doutrina do “livre mercado” só funciona na cabeça dele.


O autor em meados de 1890

Como mencionamos, Bellamy foi o caso de um escritor que fez legiões de gente trabalhadora dos EUA se interessar pelo socialismo, e ouvir esse conceito pela primeira vez na vida. Lá o socialismo chega pela literatura, e só depois pela teoria (as primeiras traduções integrais de O Capital de Karl Marx e do Programa de Erfurt de Karl Kautsky para o inglês, por exemplo, são da década de 1890). Pouco depois do lançamento, Olhando para Trás tinha conquistado de tal maneira o coração das pessoas que criaram 162 clubes bellamitas pelos EUA, em mais de trinta estados da federação, pra discutir a possibilidade de se concretizar um mundo como aquele. Ao lado de Ben-Hur e Uncle Tom’s Cabin, foi o livro de ficção mais vendido nos EUA durante todo o século XIX.


Importância da obra para a ficção científica – além introduzir conceitos básicos do socialismo como renda básica universal e governo do proletariado, Bellamy foi um visionário em termos de desenvolvimentos tecnológicos. A substituição do dinheiro por um “cartão de crédito” (Bellamy inaugura esse termo) foi concebido em seu universo de ficção científica já em 1880, sete décadas antes de a Diners Club introduzir o primeiro cartão de crédito no mercado.

O mesmo ocorre com sistemas de música sob demanda – que no mundo de Bellamy poderia ser ouvida por telefone, numa espécie de Spotify antes da era do rádio e do computador. Temos também guarda-chuvas instalado nas marquises de edifícios e sensitivos ao clima local, enormes tubos que despacham, via pressão do ar, mercadorias de grandes galpões até a casa das pessoas. Bellamy se alia ao gênero da ficção científica no que diz respeito à criação de um universo altamente tecnológico que hoje se tornou realidade. Em sua época, aquilo não passava de sonhos de um geek de tecnologia. Mas em uma coisa Bellamy estava errado: na ideia de que a tecnologia de ponta viria junto com justiça social, com a distribuição das grandes invenções para toda a população. Isso, é claro, não aconteceu ainda.


Recepção

Historicamente, o livro de Bellamy foi lido de três modos diversos:

(1) houve quem tenha pensado em aplicá-lo como um plano viável de sociedade (como vimos acima, com os grupos bellamitas), que poderia ser aplicado caso houvesse vontade política por parte da população e elites. Tal foi a leitura de Eugene Debs, Daniel De Leon, F. D. Roosevelt e demais pessoas que entrariam para a vida política estadunidense mais para a frente;

(2) houve quem o leu como um documento fiel dos anseios sociais da classe trabalhadora dos EUA em 1880 – como atestado de que parte da população já estava esclarecida acerca da falência das promessas do capitalismo antes mesmo de os EUA se consolidarem como grande potência capitalista do mundo. Nesse sentido, ler Bellamy é lembrar-se de uma esquecida tradição radical das Américas, com seus próprios desenvolvimentos regionais e expressões culturais;(3) Bellamy pode ser lido como um expoente da literatura do realismo: isto é, ao delinear o conflito entre o protagonista Julian West com a Boston utópica, o autor é capaz de articular o que havia de errado com a Boston de 1888. O salto ao futuro é indissociável de uma crítica do presente – e aqui temos uma análise preciosa de problemas de organização social, do desperdício de energia e fundos em publicidade, frete, distribuição etc. que poderia ser mitigado caso a produção fosse centralizada nas mãos de cada município, sob controle dos próprios trabalhadores. A crítica ao capitalismo em 1880 foi formulada não só via argumentos morais – “este é um sistema que produz desigualdades e, portanto, é injusto”. O argumento é mais poderoso do que isso: “este é um sistema que não produz 100% do que poderia; é um sistema cheio de dispêndios e, por isso, deve ser reconhecido como algo obsoleto caso queiramos progredir como sociedade”.

[PRÉVIA | leia aqui o trecho da Parábola da Carruagem, capítulo 1]


Textos extras

Quatro apêndices que figuram nosso volume (clique aqui para acessá-los gratuitamente); eles foram cuidadosamente escolhidos de forma a mostrar quão diferentes foram reações do público leitor de Bellamy. Quatro figuras centrais do socialismo alemão, inglês e estadunidense serão traduzidas a partir do original de forma que tenhamos um contexto mais amplo dos debates daquela virada de século XIX para o XX: trazemos o prefácio de Clara Zetkin à tradução alemã de Olhando para Trás de 1914, texto que não consta nem em suas obras completas e argumenta a favor da importância da ficção literária na divulgação de ideias políticas para as massas despolitizadas, contanto que seja acompanhada de estudos teóricos.

William Morris, o escritor inglês contemporâneo de Eleanor Marx e Bernard Shaw, escreveu uma resenha para o jornal Commonweal de 1889 em que critica o centralismo estatal na visão de futuro de Bellamy, além de sua completa desconsideração pela vida no campo. Morris reflete sobre o papel das artes e do artista na revolução.

Karl Kautsky se une às críticas de Morris na longa resenha Der jüngste Zukunftsroman para o jornal Die Neue Zeit (1889), nosso terceiro apêndice, apontando a falta de rigor teórico de Bellamy, além da impossibilidade de uma transição para o socialismo no universo ficcional proposto no livro. Nesse texto temos uma exposição privilegiada do tão atual debate sobre o reformismo versus revolução na altura da Segundo Internacional, debate que alguns anos mais tarde faria Kautsky e a SPD alemã romperem com Lênin e o partido bolchevique.

O quarto e último apêndice de nosso volume é Edward Bellamy was a friend of mine de Eugene Debs, escrito na ocasião da morte prematura de Edward Bellamy (publicado na edição de 28/05/1898 do Terre Haute Express). Aqui Debs explica a importância daquela obra para um país ignorante das ideias socialistas e da complexa filosofia alemã, algo que muitas vezes dificulta a articulação de anseios dos trabalhadores/as em uma forma efetiva de militância política. Bellamy e escritores de ficção socialista são figuras importantes para o progresso da causa, talvez tão importantes quanto teóricos, uma vez que desafiam a população a trabalhar com seu imaginário e conceber um mundo ainda não disponível.

Em nossa época neoliberal, sobretudo, que segundo o grande Mark Fisher “é mais fácil pensar o fim do mundo do que pensar o fim do capitalismo”, o gesto de Bellamy é central também por esse motivo: nossas imaginações foram colonizadas pela cultura de massas e promessas mesquinhas do consumo. É preciso de ousadia para pensar o mundo que só nós, como classe trabalhadora organizada, somos capazes de criar – e esse ato de criação começa em nossa fantasia.

Dados técnicos sobre o livro e sua produção

  • O livro possui 244 páginas e estará disponível a partir do dia 17/05/2021. Ele foi impresso no formato 16x23cm em papel Pólen Bold 90g/m², em formato brochura (“capa mole”).
  • A tradução a partir dos originais em inglês (e em alemão, no caso dos apêndices de Zetkin e Kautsky) são de Felipe Vale da Silva, que também traduziu os Escritos sobre a Guerra Civil Americana de Marx & Engels e a Obra Completa de Eleanor Marx.
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