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Yuri Mikhailovitch Steklov foi primeiro editor-chefe do Известия (Izvestiya), o diário oficial da URSS de 1917 a 1991, além de um dos responsáveis pela adoção do hino soviético baseado na antiga canção de guerra francesa, “L’Internationale”. Resgatar aquela canção tradicional era mais do que um ato simbólico: significava trazer à tona a expressão do princípio mais inovador do movimento da classe trabalhadora, o internacionalismo.

Por que a insistência no internacionalismo? A resposta foi dada por Marx e Engels lá atrás: em função de sua exclusão dos bens da terra e meios de produção, “trabalhadores não têm nação”. Para reconquistarem o que é seu, seria necessário se unir e articular uma revolta conjunta contra a classe que há séculos opera internacionalmente: a classe dos capitalistas.

Naquele período de guerras mundiais e inimizades mortais entre países pode soar contraditório dizer isso, mas Steklov constrói seu argumento a partir das premissas:

(1) o capitalismo teve de se tornar internacional para remediar as crises internas e revoltas de suas populações. Marx já observava na década de 1840 que, quando greves locais eram feitas em prol da melhoria das condições do trabalhadores, os capitalistas de países mais avançados recorriam à importação de mão-de-obra estrangeira com padrões de vida menores. Com o tempo, essa curiosa tendência convenceu os trabalhadores de se solidarizarem em seus interesses, e da necessidade de juntarem forças na luta pela melhoria de sua condição. Essa melhoria devia ser internacionalmente articulada e as primeiras conquistas dos socialistas, já depois da morte de Karl Marx, se expressou na criação de leis laborais internacionais (a fixação de jornadas de trabalho em 1919 foi uma delas).

(2) daí vem a reação capitalista: houve na época a formalização de um mercado global com regras mais ou menos estabelecidas, que romperia com as barreiras entre as nações e pavimentaria o caminho para o alastramento de um espírito internacional. Aqui passamos a falar de “Livre-comércio” em escala global: há diferentes demandas e diferentes ofertas pelo globo, e através dessa ideia os capitalistas justificam que trabalhadores na Tailândia produzam o tênis da moda por centavos de dólares, ao passo que o mesmo trabalhador na França teria que ganhar centenas de dólares pelo mesmo trabalho. A consequência lógica para tal princípio de lucro levou a um desabastecimento da indústria na França, independentemente de como isso afeta os trabalhadores individuais. Até hoje, o internacionalismo que os capitalistas aplicam é uma extensão do antigo princípio de exploração, contra qualquer interesse nacional legítimo. Já em 1923, Steklov argumenta que aqui reside a falência do mundo que viria a se tornar ‘globalizado’: hoje só estamos vendo uma amplificação do mesmo princípio.

(3) além disso, a ideia de solidariedade dos povos não durou por muito tempo em círculos burgueses. O mesmo capitalismo internacionalista, com seu mercado global, promoveu o fortalecimento da exclusividade nacional mediante conflitos e a guerra que assegurassem o tal mercado. Em outras palavras, o método de produção capitalista frustra seus próprios objetivos ao intensificar inimizades nacionais, sistematicamente gerando conflitos entre os vários povos. A Guerra Mundial vivida por Steklov pode se explicar com base nisso: ela foi também uma disputa por mercados coloniais. Quem perdeu o braço, a vida e parentes ali foi a gente trabalhadora, não os donos dos meios de produção; nesse sentido, a geração que viu a eclosão de duas guerras mundiais, uma atrás da outra, viu-se imbuída de destruir o Estado-nação ou esperar o fim da humanidade — não havia outra solução.

(4) como consequência, a noção de uma fraternidade internacional encontrou um defensor ativo no proletariado, ele próprio criado por força do desenvolvimento da pauperização das sociedades modernas; essa camada explorada acabou sendo impelida em direção à luta pela reconstrução da sociedade sobre fundamentos comunalistas. O socialismo deveria ser mais internacional que o capitalismo — ele deveria ser efetivamente internacional e promover o auxílio mútuo (não a competição) entre nações. Como diferencial do que acontecia naquela época de competição assassina entre os países, o internacionalismo do proletariado é nutrido e perpetuamente fortalecido pela solidariedade ativa dos interesses de todos os trabalhadores, independentemente de onde habitam ou de sua nacionalidade.

Em seu livro, Steklov conta como esse desenvolvimento ocorreu na prática. Ele começa tratando de agrupamentos de trabalhadores britânicos no Movimento Cartista e os Democratas Fraternais já em meados de 1840. Karl Marx e Friedrich Engels, é claro, tiveram um papel crucial aqui ao desenvolverem teorias que explicam o atual estado de mundo de forma histórica, não através de princípios abstratos, elegendo o internacionalismo como uma das armas necessárias para a reconstrução de uma sociedade pós-capitalista.

A primeira realização desses princípios ocorreu na Convenção de Londres em 28 de setembro de 1864. A proposta era singela: havia de se pensar novas formas de organização, fundos de suporte mútuo para greves e auxílio a trabalhadores que — como Marx e Engels — viviam em condições de exílio no estrangeiro e não tinham garantias mínimas contra acidentes ou dispensa imediata. A partir daí, a ideia se alastrou em meios anarquistas, socialistas e comunistas: a Associação Internacional dos Trabalhadores, como foi chamado o grupo inicialmente, ganhou prestígio e chegou a um rol de membros de (estimadas) 800.000 pessoas em 1869. Dois anos mais tarde, trabalhadores franceses se aproveitam da fragilidade do governo francês (derrotado na Guerra Franco-prussiana), e tomaram o controle de Paris nas mãos: surge aí a Comuna de Paris. Aquela foi a primeira experiência anarco-comunista real, o prenúncio da efetividade de uma sociedade autogerida a partir de princípios que superavam os reveses do capitalismo. Mais uma vez, o internacionalismo dos burgueses vence: a França faz uma aliança vergonhosa com seus antigos inimigos, os alemães, junta exércitos para massacrar os parisienses covardemente e instaura uma ditadura. A antiga elite volta ao poder.

A Comuna de Paris foi um dos desdobramentos vivenciados na época como frutos daquela nova forma de fraternidade pan-europeia. Mas nem Marx, nem Engels, viveram para ver as outras importantes articulações desse espírito internacional — é aqui que Steklov dá continuidade à história, chegando até a Revolução Bolchevique e expressando a polêmica opinião de que a formalização da URSS só seria um passo intermediário para os russos e povos aliados. O objetivo primeiro — a transição do capitalismo industrial para um sistema comunalista, mais justo e efetivo — só seria atingido com a concretização efetiva do princípio internacional. Isso representava a passagem da teoria para a práxis, digamos, que em textos clássicos do marxismo como “O Manifesto do Partido Comunista” e “O Programa de Erfurt”, consta como mera previsão.

Em 1924, Steklov participou da confecção da primeira Constituição da URSS. Em 1936, foi preso pelo regime por conspirar contra o Estado soviético que, por diversos motivos, voltava-se cada vez mais para dentro, para o desenvolvimento interno e disputa contra as potências ocidentais. O princípio leninista de autodeterminação nacional acaba por trair os objetivos prementes do internacionalismo, na sua opinião, abrindo uma discussão que até hoje é relevante para a esquerda revolucionária.


Os objetivos deste lançamento

Nosso primeiro objetivo é historiográfico: o de entender a prática do internacionalismo como pauta de instituições, sindicatos e partidos políticos históricos. Como ele pode ser atingido? Quais tipos de internacionalismo existem? Como ele transcende a mera comunicação entre células espalhadas pelo mundo e pode, de fato, promover não só um apoio moral entre as pessoas, mas também ajuda mútua efetiva, boicotes e mudança legislativa pautada nos interesses das classes trabalhadoras de todo o globo?

Em segundo lugar: o objetivo teórico de Steklov aposta na transformação do internacionalismo inconsciente dos trabalhadores em um internacionalismo articulado. Esse livro será de utilidade para pensarmos no estágio atual do internacionalismo das esquerdas, em um impasse que parece contradizer o que disseram Marx e Engels no Manifesto Comunista de 1848:

“O verdadeiro fruto de suas batalhas não é o sucesso imediato, mas sua união continuamente crescente. A união é fomentada pela melhoria nos meios de comunicação garantido pela indústria de larga escala, o que traz os trabalhadores de diferentes localidades em contato mais íntimo. Nada mais é necessário para que se canalize a multiplicidade de disputas locais, que são todas do mesmo tipo, a um disputa nacional, a luta de classes.

Contudo, toda luta de classes é uma luta política. Os citadinos medievais, cujo melhor meio de comunicação era ruas acidentadas, levaram séculos para atingir sua unidade. Graças às ferrovias, os proletários modernos podem unir forças dentro de uns poucos anos. […] Na proporção que a exploração de um indivíduo por outro chega ao fim, a exploração de uma nação pela outra cessará. O fim da oposição de classes dentro das nações acabará com as hostilidades mútuas entre as nações.”

A grande novidade da época era a máquina a vapor; hoje temos o avião e a internet, que amplifica infinitamente as possibilidades de contato entre pessoas. Como explorar o potencial coesivo de nossas tecnologias efetivamente?

Por fim, o internacionalismo continua sendo uma necessidade em 2021,na medida em que se traduz como um projeto de paz mundial, como uma interferência nas dinâmicas das relações internacionais como conhecemos, pautadas por disputas econômicas e interesses nacionais míopes. Antes de tudo, há um trabalho sério a ser feito que diferencie nosso internacionalismo aos das relações internacionais oficiais — que forma nossos diplomatas e comunicadores internacionais. A modalidade do capitalismo tardio se pauta no pragmatismo antidemocrática (que serve menos às populações e mais a uma meia dúzia de velhos ricos), nos ‘interesses da soberania nacional’ que, por vezes, está entregue nas mãos de psicopatas eleitos: em uma entrevista recente para o podcast Guilhotina, o sociólogo Daniel Aldana Cohen nos lembra que, se formos pensar nos líderes das maiores potênciais ocidentais atuais (de Putin a Erdoğan), os menos reacionários são Joe Biden e Angela Merkel. Esta é, por si só, uma constatação de crise. Pensar em uma reformulação da dinâmica social por lentes internacionais é uma necessidade; Steklov pode ser de auxílio aqui.

Edição 22 do podcast Doenças Tropicais sobre a participação anarquista no evento


Sumário e dados técnicos

Número de páginas: 428 páginas em formato 16×23 centímetros, em brochura. O miolo do livro foi impresso em preto e branco, papel Pólen Soft 90g/m².

Prévia dos apêndices ao volume (por Karl Marx)

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